Tarô

By | 09:45




Durante algum tempo eu tive insônia, incurável, me deixava maluca; acordada. Vira para um lado, nada. Outro, nada. Muda a posição, barriga para cima, para baixo. Travesseiro no meio das pernas. Nos braços. Nas costas. Filmes antigos na madrugada. Livros novos e sentimentos velhos. No fundo, dizem os entendidos, sempre sabemos a causa do incômodo. Eu não sabia. Ou fingia. Ou sabia e fingia, vai saber?!?

Eu sempre soube das coisas. Em uma curta fase da vida resolvi colocar cartas, essas de tarô. Não virei mãe de santo, nem tinha vidências em excesso. Eu colocava cartas. Não me pergunte como, mas eu acertava nas cartas - juro. Até pensei em fazer disso uma fonte de renda, venha cá, mizifia, vou contar o que há de oculto na sua vida, em troca de setenta paus. Feche a cortina, relaxe e me conte os seus problemas - não, não conte, eu adivinharei. "As cartas não mentem jamais". Elas mentem. Eu minto. A vida mente. É assim que a coisa anda - ou empaca.

Em outra fase da vida resolvi desistir das cartas. Chega, eu acertava demais. Já percebeu como a gente sempre acerta a vida do outro? É tão fácil, além de cômodo. Só que eu detesto comodidade, ainda mais quando o assunto encosta na casa de ardências internas. Gosto de camas espaçosas, sofás fofos e abraços que sufocam - de saudade, carência, alegria, paz.

Você pode tomar florais para a insônia, eles ajudam. Rivotril também ajuda. Lexotan. Chá de camomila. Frontal. E outros tarjas pretas que não recordo o nome. Você pode fazer análise. Psicoterapia. Você, se quiser, também pode escrever. Pintar. Jogar cartas. Namorar. Fazer tricô. Bordar. Reler cartas antigas. Contar elefantinhos - carneirinhos ficaria muito óbvio, insônias pedem criatividade.

Vou contar um segredo: consigo fugir, mentir, fingir, desistir, deixar tudo para o outro dia - ou os outros meses. Me desculpe, sou de verdade. Não gosto de vidas maquiadas e pessoas sem cara amarrotada de manhã. Isso, para mim, tem aquele tom amarelo falsidade. E eu gosto de tudo, até mesmo do que não gosto. Só que detesto falsidade. A insônia é falsa, pois ela faz com que você gaste muitos reais em divãs, muitos reais em contas de telefone, muitos reais em cremes para a volta dos olhos. A insônia, meu amigo, nos deixa quase pobre. E você fica naquele vira-vira tentando achar a causa. É que na vida tudo tem um motivo, você sabe.

Então, uma noite, o sono veio tranqüilo. Parei de me preocupar tanto com a causa e resolvi imaginar outras coisas antes de dormir. Tudo era sempre igual, até você aparecer. De alguma forma ingênua tentamos culpar a vida, os acontecimentos, as pessoas e deixamos de olhar para dentro. Ei, se tudo é sempre do mesmo jeito tem algo errado com você. Mas sempre queremos um culpado externo. Ei, de vez em quando a culpa está bem tranqüila na volta da lareira tomando um vinho dentro de você. Mas nunca tiramos aquele plástico invisível que nos deixa, de algum modo, protegidos de nós mesmos. A vida muda quando a gente muda, parece uma frase simples, mas não é, acredite.
Um dia você vai entender. Um dia a insônia vai embora. E um dia, eu aposto, você aprende a relaxar. Então tudo aquilo que você imaginava se desmanchará. E você, eu aposto, vai começar a viver de verdade.
É o que dizem as cartas.
Postagem mais recente Postagem mais antiga Página inicial