Claridade

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Era 1970 quando ela leu Clarissa pela primeira vez. A obra de Erico Veríssimo fez com que aos quinze anos ela já tivesse o rosto e o nome da futura filha nos sonhos. Exatamente dez anos depois nasceu a clara Clarissa.

Foi então que eu fiz quinze anos e, dentre outras coisas, ganhei o livro de capa dura, que hoje já está com as páginas um pouco amareladas pelo tempo, que avança sem que a gente perceba ou consiga deter. Sei o que Clarissa significa na sua vida, mas quero que você saiba, através de palavras, o que você significa na vida de Clarissa.

Desde pequena eu ouço que família a gente não escolhe, cai nela. Não adianta choramingar ou bater o pé, parentes são parentes, não há o que você possa fazer. Quando eu era bem menor achava muito legal a mãe da Fulana, que não enchia o saco porque ela voltava tarde, que não brigava porque ela não arrumava o quarto, que não ficava brava porque ela não ligava quando ia viajar e chegava ao destino. Coisas de pré-adolescente.

Em uma manhã eu e a Pequena Grande Confraria do Fundo estávamos esperando o Iguatemi abrir, nós matávamos aula lá. Eis que surge um carro com quem dentro? Você. Entrem, meninas, é perigoso ficar aí na rua. Eu levo vocês. Uau, a mãe da Clarissa nos levou pra matar aula. É, a mãe da Clarissa sempre foi legal. Toda a vez que eu era chamada na sala do Coordenador, lá estava a mãe da Clarissa. Me conta tudo o que você fez, por pior que tenha sido, tenho que saber da sua boca. Por isso eu nunca tive medo ou vergonha de falar das minhas coisas. Por pior que fosse a minha cagada, eu contava. E você sempre, incansavelmente, esteve ao meu lado.

Quando eu devia ter uns cinco anos ia até o seu armário, pegava os sapatos de salto alto de gente bem grande e colocava. Ficava saracoteando pela sala com eles, ouvindo o cléc cléc cléc. Também gostava de sentar no balcão do banheiro e passar blush, pó, base, sombra, rímel, uns por cima dos outros, lembra? Colocava um colar em cima do outro, uma pulseira em cima da outra e saía me achando bem linda. Lógico que você não me deixava sair pela rua assim, era só dentro de casa, senão eu iria parecer uma anã-mini-árvore-de-natal-com-uma-mãe-sem-noção-que-deixa-sair-na-rua-fantasiada-de-perua-infanto-juvenil.

Um dia você ficou doente. Talvez você não saiba ou não tenha dimensão do tsunami emocional que aconteceu dentro de mim. Mãe é para sempre. Mãe é mãe. Mãe é muito mais do que as palavras podem dizer, mais do que abraços possam demonstrar, mais do que olhares conseguem transmitir. Quando existe a probabilidade da sua mãe sofrer ou até mesmo morrer parece que uma parte do seu mundo se desfaz. E passa um filme inteirinho na sua cabeça. Aqueles com trilha sonora da vida inteira.

Tem gente que fala que mãe é pra ser mãe e não amiga. Eu discordo. Por mim podem falar o que quiserem, você sabe que sempre fui de ter as minhas opiniões. Antes de mais nada você sempre foi a minha melhor amiga. E a minha melhor mãe. Todos os meus medos, alegrias, planos, dúvidas, tudo sempre dividi com você. Você sabe quando eu minto, por mais que eu tente esconder. Sabe quando estou brava, na tpm, triste, preocupada. E é impressionante a capacidade que você tem de sentir no ar quando eu estou aprontando alguma coisa. Fala, o que você fez? E eu não consigo esconder e acabo falando. De vez em quando me arrependo, pois tudo o que você diz hoje pode ser usado contra você amanhã, não é mesmo?

Nossos conflitos-de-gênio-forte são passageiros, nunca conseguimos ficar brigadas por muito tempo, além do mais, você sabe, não consigo dormir brigada com ninguém. Muito menos com você.

Quero que você saiba que nunca, nunca lhe deixarei sozinha. O mundo inteiro pode ir embora, menos eu. Sempre vou estar aqui para segurar a sua mão e dizer que vai ficar tudo bem, mesmo que não fique. Se bem que até agora eu tenho acertado, acredite nos meus poderes. Eles são mágicos. E claros, como o nosso nome.

Sei que a nossa ligação vai além-palavras-carinhos-sorrisos-qualquer-coisa. E você também sabe. Aquele dia que eu achei que o mundo estava acabando de alguma forma, aquele dia que achei que iria ficar sem você eu rezei muito. Devo ter rezado em outras línguas até. Tudo que eu sabia e não sabia. O que mais pedi foi que se tivesse que acontecer alguma coisa com você que acontecesse comigo então. Porque eu ainda não sei viver sem você, mãe. E nem sei se esse dia vai chegar. Acho que não. Com tudo isso aprendi que o melhor das pessoas sempre fica dentro de nós. E isso não há tempo, mau tempo, bom tempo que mude.

Ainda bem que caímos, juntas, na mesma família. Se fosse diferente talvez eu estivesse até agora percorrendo o banco-de-dados-de-mães-claras atrás de você. Te amo, bem além das palavras.

Feliz aniversário.



P.S: O texto era pra ter sido publicado no dia 3 de maio, mas ocorreram problemas técnicos.
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