Entre as vírgulas

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Uma vez eu tive uma amiga (é, tive; em algumas situações as pessoas simplesmente deixam de ser) que, pela frente e pelas costas, dizia que eu mentia muito. A coitada não conseguia acreditar nas coisas que eu contava, nos causos e acontecimentos de minha dramática-confusa-indecifrável-existência. Isso me chateava, não dá pra conviver com um ser que não crê em uma vírgula do que você diz.
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Eu, por natureza, sou observadora. Eu, por natureza, escrevo. Eu, por natureza, sou artista. Acho estranho dizer que sou artista. Mas eu sou, se conforme. Minha vida é cheia de arte(s). E, como dizem na minha terra, dou um boi pra não entrar numa briga - se você conhece o resto do ditado já sabe o que virá, porém antes de continuar preciso usar da honestidade: meu sangue é meio caliente, portanto eu dou um bicho muito menor do que um boi pra não entrar em brigas. Modéstia à parte, brigo bem. E olha que não utilizo métodos canibais ou agressões físicas, puxões de cabelo e golpes baixos. Brigo finamente, afinal, sou praticamente uma miss, educada na Suíça, escola para moças, sempre a primeira da classe.
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Aqui na minha terra era pra estar frio. E não está frio. E eu quero que chegue o frio. Adoro o frio. Como é que faz trinta graus no inverno? As estações não estão bem definidas como antigamente. Antigamente, quando eu nem era nascida, era tudo certinho. Primavera tem flor. Outono tem folha. Verão tem calor. Inverno tem frio. Assim. Simplinho. Agora tá uma suruba. Tudo misturado, uma coisa em cima da outra, outra em cima da uma. Swing das estações. Credo. Era pra estar frio, está quente e meu humor fica horrível quando sinto calor. Minha pressão fica lá no dedão do pé e eu me sinto mal, mal, mal. Tão mal que quase não me resta vontade de brigar. Mas eu fui pra serra, uma cidade - teoricamente - turística. Não vou citar nomes para preservar a identidade dos envolvidos.
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Eu e uma amiga estávamos em uma cidade turística na serra gaúcha. Inverno no sul, era pra ser frio. Serra gaúcha, era pra ter neve. Pobres turistas! A cidade em questão deve ter aproximadamente vinte e cinco mil viventes. Todos nada simpáticos, nos olhavam com estranhamento. Ok, talvez fossem os nossos modelitos ousados demais para uma cidade conservadora. Maybe, baby. Eu, minha amiga e o calor. Vamos tomar um café?, eu perguntei. Adoro café, pode me convidar pra tomar um café que eu sempre aceito. Cafeína me deixa extremamente feliz e, segundo as más línguas, nervosa também. Nervosamente feliz, assim fica bom pra todo mundo. Ela topou tomar o café e lá fomos nós, lindas e loiras para a única cafeteria da cidade serrana quente.
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Sentamos do lado de fora, na calçada. Cadê a atendente? Dez minutos se passaram, minhas papilas gustativas pedindo um café quente na cidade quente. Mais cinco minutos. Comecei a sacudir a perna e a respirar daquele jeito, na minha família respiramos daquele jeito quando estamos impacientes. Desculpe, odeio esperar. Odeio filas. Odeio calor. Odeio calor no inverno. Odeio cidade minúscula com gente me olhando como se eu fosse uma popstar. Odeio cafeteria com atendente mal educado. Daqui a pouco, surpresa! Uma cabeça para fora da porta. Querem alguma coisa?, pergunta uma senhora de meia idade nada gentil. Sim, queremos uma água sem gás e um café. Preto?, pergunta a senhora de meia idade nada gentil, com apenas 50% do corpo para o lado de fora da porta. Detalhe: as clientes, nós, ainda estávamos semi-sorridentes. E olha que estava quente, muito quente. Minha pressão quase me matando e gotículas de suor dando cambalhotas na minha face já rosada pela alta temperatura. Do clima, eu digo. A corporal é sempre elevadíssima, eu disse que era caliente.
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Alguns minutos depois vem uma menina e coloca na minha frente uma xícara contendo um líquido escuro parecidíssimo com café. Sem colher. Sem adoçante. Mas tinha pires, meu amigo. Olhei incrédula e disse: moça, cadê a colherinha e o adoçante? Deixa eu contar até 10 de novo, de trás pra frente, só de lembrar me dá uma fisgada no plexo solar.
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- O café já vem com açúcar!
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Hein?!?
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- Ah, é? Então eu queria um sem, não uso açúcar.
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- Expresso?
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- Pode ser. Com adoçante. E colherinha. Por favor. Obrigada.
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A moça deu uma rabanada e saiu com uma tromba enorme. Tic tac. Lá vem ela. Atira na mesa uma xícara com pires, aponta e diz "café expresso sem açúcar". Joga na minha frente aquele negocinho porta açúcar e adoçante, aponta para o adoçante como se eu fosse uma gringa que não sabe ler e diz "e aqui está o adoçante!". Só falou ela acrescentar "sua cadela desgraçada". Respira, Clarissa.
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Tomei calmamente o café expresso com adoçante e pires. Não estava aquela belezura, mas cafeína é cafeína. No mesmo dia, na mesma cidade eu já tinha ido em uma padaria. Lá também tinha café. Lá eu ingeri quatro mil novecentas e vinte e nove calorias e tentei tomar um café. Tentei porque pedi duas vezes, era difícil demais pra moça guardar o pedido na memória, pegar uma xícara, colocar embaixo daquela maquininha dos deuses e colocar o líquido precioso lá dentro. Quando vi que a moça, depois de meia hora, não havia trazido o café eu disse: moça, o café vai demorar? Ela fez uma expressão de esquecimento e disse: esqueci, desculpa. Aham, desculpo, só me tira uma dúvida: é só colocar a xícara embaixo da máquina e apertar no botão ou ainda tem que colocar o pó e toda aquela papagaiada pra fazer o café? Ela, com uma naturalidade espantosa, me disse: é só colocar a xícara e apertar o botão. Não é feitiçaria, é tecnologia. Ah, tá. Balancei a cabeça afirmativamente e disse: então traz pra gente, por gentileza? Eu disse que era praticamente uma miss.
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Fumei dois cigarros, tomei o expresso com adoçante e pires e disse: me observa, vou brigar. Eu queria uma briga elegante. Ju-ro. Vou tomar uma água, espera um minuto. Cheguei no caixa pra pagar a conta do quase café com açúcar, sem colher e adoçante em pó e disse calmamente, esboçando um olhar serenamente forçado: aqui é uma cafeteria de uma cidade turística, certo? Não respirei e engatei: eu nunca vi em nenhum lugar do mundo servirem em uma cafeteria (com o agravante de ser uma cidade turística) café já adoçado. E se eu fosse diabética? E se eu tivesse uma alergia séria e morresse ao ingerir açúcar? Nunca vi, em um estabelecimento do tipo, não entregarem um cardápio para o cliente. A dona fez uma cara horrorizada e disse que era só eu ter pedido o cardápio. Cardápio, até onde eu sei, nem se pede, a gente recebe - que nem pai de santo recebe entidade. A senhora não está entendendo, nunca colocaram a cabeça pra fora da porta pra me atender. Um cara, que nada tinha a ver com a história, a não ser pelo fato da dona simpática estar com a mão direita sem aliança na perna dele - com aliança - disse que eu era muito petulante, que eu estava nervosa e alterada. Não, amigão, você nunca me viu nervosa e alterada. Muito menos petulante. Acredite, quando sou petulante eu detono a pessoa utilizando o mesmo tom de voz e um sorriso blasé. Ele perguntou da onde eu era, respondi e ele fez uma cara feia, como quem diz "essa puta é da capital e tá aqui cantando de galo", no caso, galinha. Pra fechar com chave de ouro, a tia que merecia um pontapé com o pé sujo e suado na cara falou "se eu troquei o teu café não entendo o motivo da reclamação". Pára tudo. Por favor, pára tudo.
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Tem gente que, infelizmente, não entende o "C" da questão, ou seja, o foco da reclamação. Tudo bem, eu nem ia voltar lá mesmo. Nunca mais. Por isso continuei elegante. Minha vontade era a de elegantemente mandar todo mundo tomar no cu, sem adoçante. Mas permaneci vermelha, com a mão na cintura e calma. Tudo bem, minha senhora, foi só uma sugestão, um comentário; continue com a cabeça de interior, com o negócio do interior e olha, muito sucesso, viu? A senhora vai longe. O cara, aquele cuja a perna recebeu a mão sem aliança da senhora do cabelo ruim com raiz aparecendo, perguntou da onde era a minha amiga. Ela respondeu e ele disse "grande m****", sem asteriscos. Nem xinguei, palmas pra mim. Eu sei me comportar. E sim, o fato aconteceu, ex-amiga. Tenho testemunhas. Minha vida é cheia de causos surreais, por favor, acredite nas minhas vírgulas. E reze pro Santo da Mudança de Tempo, preciso usar os meus casacos de pele-não-animal, é claro.
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